VIDA MALVADAGraciette
Salmon (Poetisa Paranaense)
Eu pensei em Você, Vida malvada,
vendo aí na calçada
esses meninos
- desde o bem garotinho ao quase moço
que mal ouviram o bater dos sinos
"ALELUIA" anunciando,
logo, num alvoroço,
foram batendo e sovando,
foram malhando
o boneco de pano
- pobre simulação de um ser humano
que oscilando, enforcado,
estivera num poste pendurado.
Eu pensei em Você, Vida malvada,
vendo essa garotada
erguer as mãos em gestos maus,
gritar, correr, pular,
e às gargalhadas,
com varas, pedras, paus,
bater, puxar e dar pancadas
até estracinhar,
e deixar em farrapos, molambo só,
o pobre Judas Karioth.
Eu pensei em Você, Vida malvada,
vendo essa criançada,
depois de tanta bulha e correria,
depois de tanto grito triunfante,
vir em silêncio, exausta, o peito arfante,
sem mais um assobio
para a forca vazia,
e se assentar no meio fio,
compreendendo, sentindo que o cansaço
para tão grande afã foi prêmio escasso.
Eu pensei em Você, Vida malvada,
e em seus males que turba alucinada
num horrendo martírio,
a correr, a correr em desatino,
em tumulto e delírio,
na rua de meu Destino,
estão ferindo, batendo, estão quebrando,
despedaçando
meu pobre coração,
para deixá-lo em farrapos
como o de Judas de trapos
arrastado no chão.
Eu pensei em Você, Vida malvada,
que me aflige e me fere despiedada,
pois seus males, assim como os meninos,
- os grandes e também os pequeninos
hão de cansar,
hão de parar na sua corrida louca,
vendo que, embora o coração quebrado,
batido e dilacerado,
uma queixa não sai de minha boca.
E o meu silêncio, Vida, é glória escassa
para o seu doido anseio de desgraça!
Foi por isso que, olhando a garotada,
eu pensei em Você, Vida malvada.